O aumento da participação do governo dos Estados Unidos em uma operação envolvendo a produção brasileira de terras raras coloca novamente em discussão o papel que o Brasil pretende ocupar na cadeia global desses minerais: fornecedor de matéria-prima ou também produtor de materiais e componentes de maior valor agregado.

O governo americano elevou de US$ 500 milhões para US$ 750 milhões seu aporte no veículo financeiro criado para adquirir a produção da Serra Verde, mineradora de terras raras em operação comercial no Brasil. A estrutura financeira total chega a US$ 1,55 bilhão e está ligada ao processo de aquisição da companhia brasileira pela USA Rare Earth.

Pelo acordo, o veículo terá direito à compra de 100% da produção inicial da Serra Verde de quatro elementos estratégicos — neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — durante 15 anos.

A ampliação do aporte também elimina uma das condições previstas para a conclusão da aquisição da Serra Verde pela USA Rare Earth, operação anunciada por aproximadamente US$ 2,8 bilhões.

Mais do que uma transação entre empresas privadas, o negócio chama atenção pela participação direta do governo americano em uma cadeia considerada estratégica para os Estados Unidos e pela garantia de acesso de longo prazo à produção brasileira.

Por que essas terras raras são estratégicas?

Neodímio, praseodímio, disprósio e térbio são utilizados na fabricação de ímãs permanentes de alto desempenho, presentes em tecnologias como veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e aplicações industriais e de defesa.

A Serra Verde tem uma posição particular nesse mercado. A operação, localizada em Goiás, produz em escala comercial terras raras magnéticas e representa uma fonte desses elementos fora das cadeias asiáticas.

A movimentação americana ocorre justamente em um cenário de busca por alternativas à China, que ocupa posição dominante não apenas na produção, mas principalmente nas etapas de processamento e fabricação de produtos de maior valor agregado a partir das terras raras.

É essa diferença entre possuir o recurso mineral e dominar sua cadeia industrial que torna o acordo relevante também para o Brasil.

Onde ficará o valor?

A entrada de capital estrangeiro pode acelerar projetos, ampliar produção e garantir demanda de longo prazo para minerais brasileiros. No caso da Serra Verde, a estrutura também oferece previsibilidade para a comercialização da produção.

Ao mesmo tempo, o compromisso de destinar a produção inicial de quatro terras raras por 15 anos a um veículo ligado ao governo americano levanta uma questão sobre a estratégia industrial brasileira: quanto do valor gerado por esses minerais permanecerá no país?

A mineração representa apenas uma das etapas da cadeia das terras raras. Depois dela estão processos de separação e refino, produção de metais e ligas e, posteriormente, a fabricação de ímãs e componentes utilizados pela indústria.

Quanto mais o mineral avança nessa cadeia, maior tende a ser o conhecimento tecnológico e o valor industrial associado ao produto.

Por isso, a discussão sobre terras raras no Brasil não envolve apenas quem terá acesso às reservas ou quem financiará novos projetos, mas quais etapas da cadeia produtiva o país conseguirá desenvolver internamente.

EUA buscam reduzir dependência da China

A participação americana na operação da Serra Verde faz parte de um movimento mais amplo dos Estados Unidos para diversificar suas fontes de minerais estratégicos e reduzir a dependência das cadeias controladas pela China.

Nesse cenário, países com reservas relevantes ganham importância não apenas pela disponibilidade dos recursos, mas pela possibilidade de integrar novas cadeias internacionais de fornecimento.

Para o Brasil, a movimentação cria uma oportunidade de atrair capital para um segmento que exige investimentos elevados, tecnologia e contratos de longo prazo. Mas também aumenta a pressão por uma estratégia capaz de transformar vantagem geológica em desenvolvimento industrial.

A questão passa a ser como conciliar esses dois objetivos: atrair o capital necessário para colocar projetos em operação sem limitar o Brasil ao início da cadeia produtiva.

É justamente esse equilíbrio que deverá ganhar espaço nas discussões sobre a política brasileira para minerais críticos e estratégicos, à medida que Estados Unidos, China e outras economias ampliam a disputa por fontes de fornecimento.

No caso da Serra Verde, o acordo oferece um exemplo concreto dessa nova dinâmica: recursos minerais brasileiros, capital e interesse estratégico estrangeiros e uma cadeia industrial cujo maior valor depende do que acontece depois que o minério deixa a mina.