“Fazer negócio aqui no Brasil é difícil.” Foi dessa forma que Ana Sanches, presidente da Anglo American no Brasil e presidente do Conselho Diretor do IBRAM, resumiu um dos principais obstáculos para o país transformar seu potencial mineral em novos investimentos.
Durante o Fórum LIDE Mineração, realizado nesta sexta-feira (28), em São Paulo, a executiva defendeu maior previsibilidade, segurança jurídica e segurança institucional para uma atividade em que decisões tomadas hoje podem envolver investimentos e operações projetados para as próximas sete, oito ou nove décadas.
“A gente não faz um business plan de cinco anos. A gente faz o life of mine. São 70, 80, 90 anos de planejamento. Como é que você planeja com premissas minimamente confiáveis num ambiente com tanta insegurança, tanta dúvida de quanto tempo vai acontecer?”, questionou.
Ana usou a própria experiência da Anglo American em Minas Gerais para mostrar o tamanho do problema. Ela lembrou as dificuldades enfrentadas durante a implantação do Minas-Rio, projeto de minério de ferro de alto teor que recebeu investimentos de US$ 8,2 bilhões.
Segundo a executiva, em determinado momento da implantação, as obras chegaram a ficar nove meses paralisadas depois da identificação de uma cavidade de máxima relevância abaixo do transportador de correia de longa distância (TCLD), utilizado para levar o minério britado até a planta.
Naquele momento, segundo Ana, havia quase 20 mil profissionais mobilizados no projeto.
“Ficamos nove meses parados por uma cavidade de máxima relevância”, afirmou.
Apesar de o episódio ter ocorrido há anos, a presidente da Anglo American avalia que situações semelhantes continuam possíveis no ambiente de negócios brasileiro.
“Isso poderia ser hoje, porque hoje a gente ainda convive com tudo isso. A gente tem tido avanços? Temos. Mas o ritmo desse avanço não está condizente com o famoso potencial que a gente sabe que tem.”
Para Ana Sanches, o Brasil já possui uma posição relevante no tabuleiro mundial da mineração pela própria riqueza geológica do país. A questão, segundo ela, é definir qual posição pretende ocupar diante da crescente disputa internacional por minerais críticos e estratégicos.
“O Brasil já está na mesa. Já tem nosso lugar na mesa. Isso é inerente pela própria riqueza geológica que a gente tem no nosso subsolo. A dúvida é em qual lugar a gente quer se posicionar nessa mesa”, afirmou.
A executiva alertou para o risco de o país continuar discutindo seu potencial sem conseguir transformá-lo efetivamente em novos projetos.
“Por que talvez a gente possa correr o risco — eu espero que não — de nos próximos dez anos não sair do lugar?”, questionou.
Na avaliação de Ana, não existe uma única resposta. Ela apontou uma combinação de fatores que precisam avançar simultaneamente e em velocidade maior.
“É uma combinação de fatores que tem que acontecer, mas tem que acontecer muito mais rápido.”
Empresas também precisam fazer a sua parte
Antes de cobrar mudanças no ambiente institucional brasileiro, Ana Sanches dedicou boa parte de sua apresentação às responsabilidades das próprias empresas de mineração.
A executiva destacou dois pontos: preparação das pessoas para as transformações tecnológicas do setor e aquilo que chamou de uma verdadeira licença social para operar.
Para ela, não basta esperar que governos, reguladores e outras instituições resolvam os obstáculos ao desenvolvimento da mineração. As lideranças empresariais precisam avaliar aquilo que está diretamente sob seu controle.
Ana defendeu que a mineração atraia novos profissionais, mas também prepare sua força de trabalho para um ambiente em que inteligência artificial, mudanças tecnológicas e maior imprevisibilidade exigirão competências diferentes das valorizadas no passado.
“A gente fala do futuro da mineração e não fala do futuro das capacidades e competências das pessoas”, afirmou.
Segundo ela, durante muito tempo, o profissional valorizado era aquele capaz de ser assertivo, apresentar respostas e acertar previsões. Hoje, a capacidade de trabalhar com diferentes cenários e lidar com ambiguidades passou a ser igualmente importante.
“O seu João quer saber disso?”
O segundo compromisso das empresas, segundo Ana, é com a licença social para operar — expressão que, para ela, precisa deixar de ser apenas parte do discurso corporativo.
“Licença social para operar, para mim, não é clichê. É verdade. Está na nossa caneta mesmo”, afirmou.
Ana deu exemplos bastante concretos. Defendeu que gestores das mineradoras conheçam pessoalmente os impactos da operação sobre quem vive ao redor das minas e que recursos como a água sejam tratados como ativos essenciais da atividade.
“É esperar que o meu gerente de mina vá na casa da dona Joana assistir a uma detonação e ver, da casa dela, o que é aquela cena”, exemplificou.
A presidente da Anglo American também chamou atenção para o risco de grandes empresas chegarem às comunidades acreditando que investimento, emprego e desenvolvimento econômico são suficientes para legitimar uma operação.
“Não é porque somos empresas grandes, de capital internacional, com sede lá em Londres. O seu João quer saber disso? Ele está ali na casinha dele há anos, com o pasto dele. ‘Ah, mas nós viemos aqui trazer emprego, desenvolvimento econômico.’ Eu não quero. Eu quero a minha vida, eu quero cuidado com o meu território”, afirmou, ao reproduzir a perspectiva de um morador.
Para Ana, construir essa relação passa pela maneira como as lideranças conduzem as operações e não apenas pelo cumprimento das metas empresariais.
“Falar menos e fazer mais”
Ao final, Ana Sanches retomou o ambiente de negócios e defendeu maior articulação entre as empresas para influenciar questões que não estão diretamente sob seu controle.
Ela citou a atuação do IBRAM na aproximação das mineradoras, mas afirmou que o movimento precisa ir além do próprio setor e alcançar o empresariado brasileiro.
E encerrou recuperando uma expressão que, segundo ela, costuma utilizar: “walk the talk”.
“É falar menos e fazer mais. O tempo está passando e as oportunidades estão todas aí”, afirmou.
Para a presidente da Anglo American no Brasil, o potencial geológico já colocou o país à mesa. O desafio agora é não passar os próximos dez anos discutindo qual cadeira ocupar.





