Minas Gerais exige muito da mineração. E tem que exigir.
Licença, condicionante, estudo ambiental, compensação, taxa, fiscalização, análise disso, análise daquilo. Tudo dentro de uma enorme burocracia. Já presenciei, na mina de um conhecido, uma empresa especializada ser contratada para recolher fezes de morcego para análise do bioma. Os profissionais chegaram com uma indumentária tão sofisticada que, olhando de longe, parecia que estavam recolhendo urânio depois de um acidente numa usina nuclear. Não estou dizendo que não deveria ser feito. Se tecnicamente é necessário, que seja.
Estou apenas tentando mostrar até onde conseguimos chegar quando o assunto é exigir da mineração. Pois bem. Passados os dois primeiros dias da EXPOSIBRAM, em Belo Horizonte, comecei a me perguntar se não está na hora de inverter um pouco essa lógica. A mineração talvez precise começar a apresentar algumas condicionantes para Minas Gerais também.
A EXPOSIBRAM deste ano é a maior da história. São mais de 750 estandes espalhados por mais de 17 mil metros quadrados. Toda a área disponível foi comercializada. É gente do Brasil inteiro e de vários lugares do mundo vindo a Belo Horizonte para fazer negócio.
E o Expominas ficou pequeno. Aliás, vou além: Belo Horizonte ficou pequena para receber grandes eventos. Há pelo menos 20 anos escuto conversas sobre uma nova área, um novo centro de exposições, um projeto aqui, outro ali. Governo entra, governo sai, aparece uma ideia, desaparece outra e continuamos no Expominas.
Não me interessa muito se um novo centro será construído pelo Estado, concedido, arrendado, operado pela iniciativa privada ou se vão inventar outro nome mais sofisticado para isso. Uma das funções do poder público é criar ambiente para que a economia cresça.
Chegar à EXPOSIBRAM virou uma prova de resistência. Há relatos de pessoas gastando uma, duas e até três horas no trânsito. A estrutura viária no entorno claramente não dá conta do volume do evento e, quando finalmente se consegue entrar, encontramos outra demonstração de que a feira cresceu mais do que a casa.
Nos horários de pico, os corredores ficam abarrotados. Andar vira exercício de paciência. O ar-condicionado perde eficiência, a temperatura sobe e tendas e áreas improvisadas tentam acomodar aquilo que já não cabe confortavelmente dentro da estrutura original.
Curiosamente, o problema não é a feira. A feira é muito boa. Os estandes impressionam. Arquitetura, iluminação, atendimento, recepcionistas treinados, equipamentos, soluções e empresas de serviços mostram um padrão internacional. Há negócio sendo feito por todos os lados. A feira respira conexão. Não a de telefonia.
O sinal de dados dentro do Expominas é precário. Não se consegue mandar com facilidade uma mensagem de WhatsApp. A rede Wi-Fi que encontrei não tem alcance e não consegue acompanhar o movimento da feira.
Em 2026, num evento que discute inteligência artificial, automação, equipamentos autônomos e mineração do futuro, conseguir mandar uma mensagem pelo celular não deveria fazer parte dos desafios tecnológicos apresentados aos visitantes.
Mas o melhor exemplo dessa contradição talvez esteja no próprio aplicativo da EXPOSIBRAM. A descrição oficial promete “mapas interativos para localizar estandes e auditórios com facilidade”. Fui procurar. O aplicativo até tem um mapa. Ou melhor, tem aquilo que chamávamos de mapa antes de inventarem o GPS.
Você clica e vai parar numa planta da feira aberta no navegador. Não encontrei uma navegação que permita dizer onde estou, para onde quero ir e qual caminho devo seguir. Muito menos algo realmente útil para uma feira de negócios: quero fornecedores de determinada área, quais são? Onde estão? Quais quero visitar? Qual a melhor sequência?
Uma feira desse tamanho e dessa qualidade precisa ter uma experiência digital do mesmo nível. Ainda mais quando existem mais de 750 estandes disputando a atenção de dezenas de milhares de visitantes.
Se Minas quer atrair investimento, empresas, tecnologia e gente do mundo inteiro, precisa oferecer infraestrutura para isso. E, por ironia do destino, o minerador já esteja acostumado com tudo isso. Ele convive com estradas sem manutenção que encarecem o frete, com uma malha ferroviária que está longe de atender tudo o que Minas poderia produzir, com gargalos logísticos e com estruturas públicas que muitas vezes não têm gente, tecnologia ou capacidade suficientes para dar a agilidade necessária aos processos de licenciamento.
Aí ele pega duas horas de trânsito para chegar à EXPOSIBRAM, entra num Expominas estrangulado, disputa espaço nos corredores, procura sinal no celular e talvez ache tudo normal. E não deveria ser.
Talvez a EXPOSIBRAM seja apenas uma fotografia, em alguns metros quadrados, daquilo que o minerador mineiro encontra todos os dias do lado de fora dela. É quase engraçado. Quase. Minas exige, corretamente, estudos, projetos, investimentos, compensações e condicionantes antes de permitir que uma mineradora avance.
Chegou a hora de a mineração exigir o mínimo pelo que entrega ao Estado. Quem sabe agora a linguiça começa morder o cachorro.





